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Café Palhares: 80 anos de um veterano de respeito e o kaol original

João Renato

29/05/2018 11h08

Foto: Nenel Neto

Principal criação do Café Palhares, o kaol leva ovo, arroz, linguiça, couve, molho de tomate, torresmo e farofa


Em uma cidade como Belo Horizonte, que recém completou 120 anos, é admirável que qualquer estabelecimento ultrapasse um par de décadas sem cair no ostracismo. Os que conseguem costumam se tornar ícones da cidade, como o lendário Café Palhares, que completa incríveis 80 anos em 2018.

Boa parte do sucesso da casa vem da fama do prato feito servido por lá, o kaol. A história é conhecida. A sigla significa cachaça, arroz, ovo e linguiça e foi criada pelo compositor Rômulo Paes. Notório boêmio, ele trabalhava na Rádio Mineira nos anos 1940, onde hoje está a rodoviária da capital, e passava no Café Palhares, que na época funcionava 24 horas, para beber e por o papo em dia.

Entre uma bebedeira e outra, ele cresceu o olho na comida que era servida para os funcionários em um prato de papelão: uma porção caprichada de arroz, com ovo e linguiça. Ele pediu para provar e não sossegou até que João Ferreira, o seu Neném, proprietário da casa, incluísse a pedida no cardápio. Paes acrescentou a dose de cachaça e criou a sigla kaol. O 'k', segundo ele, era para dar mais "pompa" ao prato.

Com o tempo, a cachaça passou a ser opcional e o kaol foi ganhando outros ingredientes. O primeiro foi o molho de tomate, seguido da couve, da farofa e do torresmo. Além disso, a tradicional linguiça pode ser substituída por carne de panela, língua, dobradinha ou pernil.

É assim que você encontra a receita no Café Palhares de hoje, e que faz sucesso. São cerca de 500 pratos vendidos por dia. Quando se considera o tamanho um tanto acanhado do salão – são 18 lugares em torno do balcão -, o número fica ainda mais impressionante. "O primeiro acréscimo foi o molho. Antes, o kaol vinha com uma rodela de tomate, mas era uma coisa decorativa. Aí sobrava muito tomate e fomos fazendo o molho, que é um grande diferencial do prato", revela João Lúcio, filho de seu Neném e proprietário do café Palhares, junto do irmão Luiz Fernando. Depois, explica, vieram os outros acréscimos. "A couve, por exemplo, é uma coisa muito mineira, veio para dar uma equilibrada no prato e deu certo. Tanto que muita gente acha que o 'k' no nome é da couve", conta João Lúcio.

O kaol original é composto de cachaça, arroz, ovo e linguiça

O que ninguém conta, nem o cardápio, é que o kaol na sua concepção original ainda pode ser pedido por quem tiver a curiosidade de provar a receita. Não tem muito mistério. Ao conseguir se sentar, peça seu kaol sem molho, couve, farofa e torresmo. O garçom vai olhar meio desconfiado, mas confirme que é isso mesmo. Peça também um ovo extra, já que a gema é que vai garantir uma certa suculência ao prato. Embale isso tudo, obviamente, com uma dose de cachaça. Sem os ótimos penduricalhos, o kaol original se revela na sua combinação simples de ingredientes, quase espartana: é prato de gente trabalhadora, que quer mesmo é encher o bucho, prato de quem não tem muita paciência com gourmet disso e confit daquilo, prato de quem quer aplacar uma ressaca das bravas. Ou seja, é um resumo do Brasil a cada garfada. Imperdível.

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Rua dos Tupinambás, 638, Centro.

Sobre o autor

João Renato Faria é jornalista de Belo Horizonte, atualmente no jornal O Tempo, e com passagens por Portal Uai, Estado de Minas e revista Veja BH. Gosta de descobrir novidades gastronômicas pela cidade, de música pesada, de rock instrumental e novidades da cena independente. Tem a compulsão de comprar livros mais rápido do que consegue lê-los. Já pensou em se mudar de BH, mas por enquanto a cidade é o único lugar com um feijão-tropeiro decente.

Sobre o blog

A música e a gastronomia de Belo Horizonte são o foco do blog. Os posts abordam tendências sonoras, eventos, atividades de casas de shows e a movimentação da cena independente. Os textos também falam sobre as boas opções de comidas de rua, bares e lanchonetes, veteranas ou recém-inauguradas na cidade.