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Quente: produtora agita a cena musical belo-horizontina

João Renato

12/06/2018 13h57

O guitarrista do Sonic Youth, Lee Ranaldo, fez show em inferninho de BH


Para os fãs mineiros de indie rock, vai ser praticamente um presente de Natal antecipado. Tradicional inferninho de Belo Horizonte, A Obra Bar Dançante vai receber, pela segunda vez, um membro do Sonic Youth. O primeiro integrante da seminal banda de rock alternativo norte-americana a tocar na casa, que cabe cerca de 200 pessoas, foi o guitarrista Lee Ranaldo, em agosto de 2017. Agora, quem chega é o baterista Steve Shelley, que se apresenta no dia 3 de julho, com o projeto Riviera Gaz, que inclui também o guitarrista e vocalista Gustavo Riviera e o baixista Paulo Kishimoto, ambos ex-integrantes da banda paulistana Forgotten Boys.

Por trás dessa vinda parcelada da banda está a Quente, agência que completa cinco anos de atuação nos bastidores da cena musical mineira em 2018. Capitaneada pelos produtores Marcelo Santiago e Luciano Viana, e pelo DJ Aniston Nest, a companhia é um excelente exemplo de como a música precisou se organizar após o colapso das grandes gravadoras.

"Nós surgimos inicialmente como um selo, para lançar bandas que gostamos. Depois, passamos a agenciar alguns artistas, fazer o booking e organizar turnês. Por um tempo, nosso foco foi esse. Depois, o mercado piorou e os produtores pararam de comprar shows. O resultado é que nós mesmos passamos a produzir nossos eventos, o que é hoje a nossa principal atividade", explica Santiago. Entre as principais bandas que a Quente cuida estão o Young Lights, que mistura indie rock e folk americano e o Oceania, novo projeto do vocalista e guitarrista Gustavo Drummond, ex-Diesel e Udora. Já os eventos com a assinatura do trio incluem festivais como o Tremor e o Coquetel Molotov, com bandas como Black Drawing Chalks, Silva e o quarteto americano Deerhoof.

O trabalho de bastidores do trio, que envolve a costura entre banda, público e as casas de show de BH, porém, não é simples. Algumas bandas, por exemplo, ainda estão buscando a lógica de uma indústria fonográfica pujante, o que não existe mais. "Aquela figura do olheiro da grande gravadora, que vai descobrir a banda, pegar pela mão e levar ela ao estrelato, não existe mais. Hoje, a banda tem que saber que precisa correr junto, também precisa ser empreendedora", avalia Nest.

Outro problema é a estrutura da cidade. Além da A Obra, o trio costuma produzir seus eventos na A Autêntica, casa voltada para a produção autoral, e no Matriz, espaço tradicional do underground mineiro. Só que esses espaços atendem um público de até 400 pessoas. Acima disso, a cidade só oferece teatros, como o Sesc Palladium, ou o Music Hall, que comporta 1.500 pessoas. "Não temos uma casa média, para umas 700 pessoas, por exemplo", explica Viana. A solução, segundo eles, é ocupar outros espaços. "Variamos, porque senão o público fica saturado de um lugar. O Matriz mesmo, por ser mais antigo, nós sabemos que existe uma certa resistência. Já fizemos eventos no Galpão Cine Horto e no Espaço 104", cita Santiago.

O ideal da Quente, porém, é continuar apoiando as casas. "Esses lugares são fundamentais, mas têm dificuldades para se manter, já que têm um operacional caro. É importante fomentar esses espaços, já que tocar em casa de show é o que conta para as bandas e para a cena", detalha Viana.

Grupo de folk rock Young Lights é um dos destaques da cena

Mas em tempos de Netflix, eles reconhecem que o principal desafio é mesmo tirar o público de casa. Hoje, a produção musical enfrenta a concorrência de serviços que fazem de tudo para manter a pessoa no sofá. "Em vez de sair de casa, o cara emenda uma maratona de séries, já pede uma comida pelo celular mesmo, e pronto, está resolvida a noite dele. Precisamos entender o que esse sujeito quer, para oferecer para ele uma experiência, um motivo para ir aos shows", avalia Santiago.

Felizmente, o terreno em que a Quente está é fértil. A produção musical de Belo Horizonte, avaliam, nunca esteve tão interessante e diversificada. Além do Young Lights e do Oceania, eles indicam outros nomes que valem a pena ser acompanhados. "O Djonga, que é da cena do rap, está muito grande. Tem surgido também uma galera mais nova, o Mineiros da Lua, que está levando uma moçada que não costumava frequentar shows. Outro menino novo é o Arthur Melo, que faz um som interessante. Também nos chamam a atenção as bandas do selo La Femme Qui Roule, como Teach Me Tiger e Moons. Gostamos muito de Pequeno Céu. No hardcore, temos o Pense e o Carahter, que é uma banda bem conhecida", contam.

A variedade sonora é, para Nest, a prova de que a segmentação por estilos está ultrapassada na cidade. "BH teve um momento em que as pessoas iam aos eventos por lotes: o que curtia metal só ia em show de metal, o cara que gostava de rap só ia nos eventos de rap, e hoje todo mundo curte de tudo. Não dá para definir a 'cara da música de BH', um estilo só da cena. A pessoa ouve rap, passa para o jazz, emenda o indie rock, vai para o pop, não tem problema", detalha.

Para os próximos meses, a agenda do trio está cheia. Além do show de Steve Shelley, eles preveem para agosto a segunda edição do Circuito de Literatura e Cafés, que reúne debates sobre cultura nas principais cafeterias da cidade. Em outubro, está agendada a vinda da banda francesa de indie rock Why Mud, e em novembro, uma edição especial do festival Música Quente, para celebrar os cinco anos da produtora. Outros shows internacionais também estão no radar do trio. "Mas dependemos do dólar parar de variar", alerta Santiago.

Além disso, o grupo sonha em completar a vinda do Sonic Youth no futuro. "Não é absurdo pensar em trazer o projeto da Kim Gordon (baixista) para A Obra. Também já sondamos o Thurston Moore (vocalista e guitarrista). Ainda não rolou, mas continuamos de olho", diz Santiago. A cena agradece.

O trio Aniston Nest, Luciano Viana e Marcelo Santiago comanda a Quente

Sobre o autor

João Renato Faria é jornalista de Belo Horizonte, atualmente no jornal O Tempo, e com passagens por Portal Uai, Estado de Minas e revista Veja BH. Gosta de descobrir novidades gastronômicas pela cidade, de música pesada, de rock instrumental e novidades da cena independente. Tem a compulsão de comprar livros mais rápido do que consegue lê-los. Já pensou em se mudar de BH, mas por enquanto a cidade é o único lugar com um feijão-tropeiro decente.

Sobre o blog

A música e a gastronomia de Belo Horizonte são o foco do blog. Os posts abordam tendências sonoras, eventos, atividades de casas de shows e a movimentação da cena independente. Os textos também falam sobre as boas opções de comidas de rua, bares e lanchonetes, veteranas ou recém-inauguradas na cidade.